aguadeiros_sepia
A origem dos Kalungas remonta ao século XVIII, durante a exploração das "minas dos Goyases", como era chamada a região de Goiás. Na língua banto, "kalunga" significa lugar sagrado, de proteção. Foi em busca deste lugar que os negros, fugidos da escravidão, formaram o quilombo nas serras goianas. Hoje, o povo de origem africana, costumes indígenas e tradições católicas luta para fortalecer sua cultura e vencer o isolamento.
Os Kalungas
kalungas_guiasA população Kalunga é uma comunidade de negros, originalmente formada por descendentes dos primeiros quilombolas, ou seja, de escravos que fugiram do cativeiro e organizaram quilombos, passando a viver em relativo isolamento, construindo para si uma identidade e uma cultura próprias, com os elementos africanos de sua origem adicionados aos europeus dos colonizadores, marcados pela forte presença do catolicismo tradicional do meio rural. Estes quilombos localizavam-se ao norte da região que hoje é conhecida como Chapada dos Veadeiros e, desde 1991, toda área ocupada por esta comunidade foi reconhecida oficialmente pelo governo do estado de Goiás como sítio histórico que abriga o Patrimônio Cultural Kalunga, parte essencial do patrimônio histórico e cultural brasileiro.

A área Kalunga, situada no nordeste do município, com mais de 230 mil hectares de cerrado protegido, é a maior comunidade remanescente de quilombo do Brasil, com cerca de 4.000 cidadãos que só tiveram contato com a "civilização" há menos de 30 anos - um povo mágico de forte sangue negro.

A história desse povo confunde-se com o período de mineração do Brasil Colônia e dos bandeirantes. Cansados de serem explorados, os negros sofridos acabaram por se rebelar e fugiram, escondendo-se na mata, entre serras, num local de difícil acesso onde formaram o povo Kalunga.

Essa região ainda permanece intacta e com grande riqueza natural, protegida pela decretação do Sítio Histórico do Kalunga, que é devida, muito mais que a outras, à intervenção, estudo e dedicação de uma goiana das mais ilustres, a Professora Mari de Nazaré Baiocchi, que Deus a proteja. Seu livro Kalunga, Povo da Terra, foi o pontapé inicial de todo o processo para obter o decreto presidencial que os protege.

Lá, em meio ao cenário mais fantástico da Chapada, encontramos uma enorme diversidade de animais como lagartos, camaleões, pacas, antas, lontras, periquitos, tucanos, araras e onças, e de plantas como Angico, Jatobá, Sucupira, Ipê, Baru, Pau-Brasil, Carvoeiros, Canela-de-Ema, Arnica, orquídeas de todas as formas e cores, além das inigualáveis flores do cerrado.

As festas santas dos Kalungas são repletas de rituais cerimoniosos, como a Festa do Império e o Levantamento do Mastro, que têm coreografia complexa e atraem centenas de visitantes. As festas da sede também são muitas e carregadas de tradição: a Caçada da Rainha, a Festa do Divino, A Folia de Reis, a caminhada da Sexta-feira Santa ao topo do Morro da Cruz e o nosso Carnaval de rua, famoso na região.

A história desta comunidade tem início no período no qual a região que hoje constituí o estado de Goiás começou a ser conquistada pelos colonizadores portugueses motivados pela busca das riquezas minerais, em particular o ouro.

Foi no final do século XVII e no começo do século XVIII que os bandeirantes finalmente conseguiram realizar o sonho do encontrar ouro nas terras do interior do Brasil. A quantidade de ouro era tamanha que as terras onde foi descoberto passaram a ser chamadas de Minas Gerais.

Começou então a febre do ouro e muitos portugueses se mudaram para as Minas Gerais buscando o enriquecimento rápido. Esta nova leva de imigrantes também trouxe consigo um enorme contingente de escravos africanos para trabalhar na mineração, tal qual ocorria nas lavouras de cana-de-açúcar.

O trabalho era constante, cavando as beiras de rios e ribeirões, com metade do corpo dentro d’água, tirando o cascalho misturado com as pepitas de ouro que posteriormente eram separadas. Muitos escravos viviam a maior parte do tempo na escuridão, trabalhando nas minas e cavando cada vez mais fundo para tirar o ouro de dentro da terra.

A ambição dos bandeirantes os fez adentrar as terras do sertão, subindo e descendo serras e avançando pelo cerrado. Em 1722, o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, juntamente com João Leite da Silva Ortiz, chegou àquelas terras que iriam ser chamadas de “minas dos Goiases”, nome dado em função de um povo indígena que vivia na região. Com isto começou o ciclo do ouro nesta região e com ele a história do povo Kalunga.O trabalho na mineração era difícil e a condição de escravidão na qual viviam tornava a vida muito dura. As fugas eram constantes e os castigos àqueles que eram recapturados muito severos. Entretanto, mesmo correndo o risco de serem pegos, os escravos continuavam tentando fugir em busca da liberdade.

Para evitar a recaptura os fugitivos tinham que ir cada vez mais longe, refugiando-se na região da Chapada dos Veadeiros. O relevo, extremamente acidentado desta região, formando um verdadeiro mar de serras, dificultava as buscas e foi aí que se estabeleceu o território Kalunga. Cercado por inúmeras serras, este território também tem uma grande quantidade de rios que o abastece de água. O principal rio da região é o Paranã, afluente do rio Tocantins que, após receber as águas do rio Araguaia deságua no rio Amazonas. Entretanto, o território Kalunga não era desabitado. Esta região também servia de refúgio para diversos povos indígenas que fugiram de seus territórios com a chegada dos colonizadores. Havia povos de diversas nações, como os Acroá, Capepuxi, Xacriabá, Xavante, kaiapó, karajá e Avá-Canoeiro.

Os índios não tinham muita confiança para se aproximar dos quilombolas, pois achavam que os negros faziam parte do mundo dos brancos, com o qual não queriam contato. Os negros por sua vez também temiam os índios, pois muitos deles, conforme diz o povo Kalunga, eram índios bravos, que não tinham amansado. Mas os índios não eram inimigos dos negros dos quilombos. Os mais velhos contam que era costume tratar os índios por tapuias ou compadres e que todos tomavam cuidado para não assustar ou aborrecer os compadres quando eles andavam por perto das casas. Tinham que aceitar como brincadeira até as coisas um pouco malvadas que às vezes faziam, por malineza, como diz o povo Kalunga. Fazia parte destas “brincadeiras“ roubar a comida que ficou na panela do lado de fora e até mesmo levar embora uma criança kalunga, para só devolver uns dias depois. Pouco a pouco a confiança entre negros e índios foi crescendo. Os índios tinham curiosidade de ver, mesmo que de longe, como viviam os quilombolas, espiando sem serem vistos, acompanhando as festas e rezas. Com o passar dos anos eles foram se aproximando e depois de algum tempo já passaram a ocorrer casamentos entre eles.

Além dos quilombolas e índios, outros negros, que no século XIX se mudaram para aquelas serras e ali foram abrir fazendas ou viver em pequenos sítios, se juntaram ao povo Kalunga. Assim, lentamente, o povo Kalunga foi se estendendo pelas serras em volta do rio Paranã, por suas encostas e seus vales, que os moradores chamam de vãos.

Hoje eles ocupam um território que abrange parte dos municípios de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás. Nesse território existem quatro núcleos principais de população: a região da Contenda e do Vão do Calunga, o Vão de Almas, o Vão do Moleque e o antigo Ribeirão dos Negros, depois rebatizado como Ribeirão dos Bois. E é assim que os moradores se identificam quando se pergunta de onde eles são: do Vão de Almas, da Contenda, do Moleque...

Última atualização em Sex, 17 de Abril de 2009 01:58
 
sussa

Para se conhecer o povo Kalunga, e sua história, é imprescindível vivenciar suas festas.

Durante as festas ocorre o momento do encontro, da reunião das famílias.
De vários remanescentes quilombolas da região.

As pessoas vêm que fazem parte não só de um grupo, mas de uma comunidade maior.
Na ocasião das festas que a maioria das pessoas de fora vêm conhecer o povo kalunga.